Jatropha gossypiifolia L. (Pinhão-Roxo)

Autoria: Paula Moraes Ferreira;

Revisão: Prof. Dr. Victor Celso.

A espécie Jatropha gossypiifolia L. pertence à família Euphorbiaceae e ao gênero Jatropha. Este gênero apresenta grande diversidade morfológica, compreendendo entre 165 e 175 espécies distribuídas em regiões de clima tropical, subtropical e tropical seco. O gênero Jatropha é dividido em dois subgêneros, Jatropha e Curcas; o subgênero Jatrophapossui ampla distribuição geográfica, sendo encontrado na África, Índia, América do Sul, Antilhas, América Central e Caribe.

No Brasil, Jatropha gossypiifolia L. é popularmente conhecida como pião-roxo, embora receba diversas outras denominações populares em diferentes regiões do país e do mundo. Além disso, a espécie apresenta variações na grafia de seu nome científico encontradas na literatura, como Jatropha gossipifolia L., Jatropha gossipyfolia L., Jatropha gossypifollia L., Jatropha gossypyfolia L., Jatropha gossypifolia L. e Jatropha gossypiifolia L., sendo estas duas últimas as formas mais frequentemente utilizadas (Mariz, 2007).

A espécie é considerada uma das plantas tóxicas de maior relevância no Brasil. Seu látex apresenta elevada ação irritante e corrosiva sobre a pele e as mucosas. A ingestão de partes da planta pode provocar alterações no sistema digestório, depressão das funções respiratória e cardiovascular, além de comprometimento da função renal em casos mais graves, podendo levar ao coma e à morte (Adolf et al., 1984; Guirola et al., 1992; Schvartsman, 1992; Mariz, 2007).

Morfologia

J. gossypiifolia apresenta-se como um arbusto lactescente que pode alcançar de 1,5 a 4,5 m de altura. Suas folhas são grandes, medindo de 16–19 cm de comprimento por 10–12,9 cm de largura, dispostas de forma alterna, revestidas de pelos, lobadas e com presença constante de cera em pelo menos uma das faces (adaxial ou abaxial). A coloração foliar varia entre verde, arroxeada ou mista, dependendo das condições ambientais ou do estágio de desenvolvimento (Olowokudejo, 1993).

Suas flores podem apresentar cor roxa ou avermelhada, dispostas em cimeiras paniculadas. Os frutos são pequenos, esverdeados quando imaturos (cerca de 1 cm de comprimento) e do tipo capsular, contendo de 1 a 3 sementes escuras com pintas pretas e ricas em óleo (Corrêa, 1984; Schvartsman, 1992). O caule é lenhoso, ereto, cilíndrico, sólido e ramificado, com raízes relativamente curtas e pouco profundas, exsudando látex branco-amarelado quando os ramos são cortados (Kumar & Singh, 2012).

Usos Populares e Potencial Terapêutico

J. gossypiifolia L. apresenta tanto propriedades medicinais quanto tóxicas. Diferentes partes da planta são utilizadas na medicina popular, como folhas, caules, raízes, sementes e o látex, sendo preparadas na forma de chás, decocções, macerados ou aplicadas diretamente sobre a pele e em banhos (Félix-Silva et al., 2014). O modo de preparo pode modificar algumas substâncias químicas presentes na planta, reduzindo a quantidade de compostos tóxicos e tornando o produto final menos prejudicial (Mariz et al., 2010).

Por exemplo, estudos sugerem que o extrato aquoso (preparado na forma de chá) apresenta menor toxicidade aguda quando comparado ao uso direto de outras partes da planta ou do látex (Nagaharika et al., 2013). Embora a J. gossypiifolia conste na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) devido ao seu amplo histórico de uso popular e potencial terapêutico, faltam dados clínicos padronizados de segurança posológica e margem terapêutica. Dessa forma, a validação de sua eficácia e a determinação de doses isentas de riscos genotóxicos ou crônicos ainda demandam investigação (Mariz et al., 2010).

Além disso, a espécie apresenta efeitos aparentemente contraditórios: alguns trabalhos relatam atividade antidiarreica, enquanto outros descrevem efeito laxativo. Uma das explicações propostas é que esses efeitos podem estar relacionados à dose utilizada, uma vez que a ação laxativa é também um dos sinais observados nos quadros de intoxicação pela planta (Félix-Silva et al., 2014).

Regiões Tóxicas, Intoxicação e Sintomas

A toxicidade de Jatropha gossypiifolia está associada principalmente ao látex e às sementes (Ogboge & Akano, 1993). O látex, liberado quando a planta sofre danos mecânicos, apresenta ação cáustica e irritante sobre a pele e mucosas (Schvartsman, 1992; Mariz, 2007). De maneira semelhante, o contato com as sementes pode desencadear processos inflamatórios cutâneos, como o desenvolvimento de dermatites, pela presença de um complexo de resina lipoídica com potencial irritante (Sabandar et al., 2013).

Ademais, as sementes contêm elevadas concentrações de toxalbuminas — proteínas tóxicas capazes de promover a aglutinação e a hemólise de eritrócitos —, afetando diretamente a circulação sanguínea, além de causar danos a diversos tipos celulares (Sabandar et al., 2013). A intoxicação em humanos normalmente se dá pela ingestão dessas sementes e frutos, devido à semelhança com castanhas comestíveis (Schenkel et al., 2007).

A sintomatologia consiste, em geral, em distúrbios gastrintestinais (dor abdominal, náuseas, vômitos e diarreia). Ademais, o quadro clínico pode acarretar complicações cardiovasculares, neurológicas e renais (Schenkel et al., 2007).

Um estudo realizado por Almeida (2014), que avaliou o potencial genotóxico de componentes de Jatropha gossypiifolia (incluindo os extratos foliares e o látex), evidenciou efeitos citotóxicos, genotóxicos e potencial mutagênico em nível cromossômico. Nesse mesmo contexto, pesquisas utilizando extratos obtidos das folhas e dos caules da espécie demonstraram que, embora a administração em dose única apresente baixa toxicidade aguda, o uso prolongado pode causar danos significativos ao organismo (Mariz et al., 2006). Entre os principais efeitos observados estão indícios de lesões hepáticas, renais e pulmonares, além do aumento da mortalidade nos animais avaliados (Mariz, 2007; Mariz et al., 2008).

Assim, embora a J. gossypiifolia apresente relevante histórico de uso popular e conste em diretrizes de incentivo à pesquisa como a RENISUS, seu uso empírico e não orientado exige cautela máxima. A estreita margem de segurança e a variabilidade na composição dos extratos artesanais reforçam a necessidade de controle posológico e de novos estudos clínicos que garantam o uso terapêutico seguro e eficaz da espécie (Mariz et al., 2010).

Referências

ALMEIDA, Pedro Marcos de. Potencial genotóxico do extrato foliar e do látex de pinhão-roxo (Jatropha gossypiifolia L.). 2014. 113 f. Tese (Doutorado em Genética) – Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Ciências Biológicas, Recife, 2014.

CORRÊA, M. P. Dicionário das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura; Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, 1984. v. 5.

DEVAPPA, R. K.; MAKKAR, H. P. S.; BECKER, K. Toxicidade da Jatropha: uma revisão. Journal of Toxicology and Environmental Health B: Critical Reviews, v. 13, n. 6, p. 476-507, 2010.

FÉLIX-SILVA, J.; GIORDANI, R. B.; SILVA JÚNIOR, A. A.; ZUCOLOTTO, S. M.; FERNANDES-PEDROSA, M. F. Jatropha gossypiifolia L. (Euphorbiaceae): a review of traditional uses, phytochemistry, pharmacology, and toxicology of this medicinal plant. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, v. 2014, art. 369204, 2014.

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MARIZ, S. R. Estudo toxicológico pré-clínico de Jatropha gossypiifolia L. 2007. 186 f. Tese (Doutorado em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos – Área de Concentração em Farmacologia) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2007.

MARIZ, S. R. et al. Avaliação histopatológica em ratos após tratamento agudo com o extrato etanólico de partes aéreas de Jatropha gossypiifolia L. Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 18, n. 2, p. 213-216, 2008.

MARIZ, S. R. et al. Estudo toxicológico agudo do extrato etanólico de partes aéreas de Jatropha gossypiifolia L. em ratos. Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 16, n. 3, p. 372-378, 2006.

MARIZ, S. R.; BORGES, A. C. R.; MELO-DINIZ, M. F. F.; MEDEIROS, I. A. Possibilidades terapêuticas e riscos toxicológicos de Jatropha gossypiifolia L.: uma revisão narrativa. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, v. 12, n. 3, p. 346-357, 2010.

NAGAHARIKA, Y.; KALYANI, V.; RASHEED, S.; KARTHIKEYAN, R. Atividade anti-inflamatória das folhas de Jatropha gossypifolia L. pelo método de estabilização da membrana de HRBC. Journal of Acute Disease, v. 2, n. 2, p. 156-158, 2013.

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OLOWOKUDEJO, J. D. Comparative epidermal morphology of West African species of Jatropha L. (Euphorbiaceae). Botanical Journal of the Linnean Society, v. 111, p. 39-54, 1993.

SABANDAR, C. W.; AHMAT, N.; JAAFAR, F. M.; SAHIDIN, I. Medicinal property, phytochemistry and pharmacology of several Jatropha species (Euphorbiaceae): a review. Phytochemistry, v. 85, p. 7-29, 2013.

SCHENKEL, E. P.; ZANNIN, M.; MENTZ, L. A.; BORDIGNON, S. A. L.; IRGANG, B. Plantas tóxicas. In: SIMÕES, C. M. O. et al. Farmacognosia: da planta ao medicamento. Porto Alegre: Editora da UFRGS; Florianópolis: Editora da UFSC, 2007.

SCHVARTSMAN, S. Plantas venenosas e animais peçonhentos. 2. ed. São Paulo: Sarvier, 1992.

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